RAÍZES DO CONSTRUTIVISMO DE TUPARENDI

Vitor Geraldi Haase

Ontem, atendi uma família muito bacana. Ao final de um dia de exame neuropsicológico com um adolescente que - como sua família, também é um cara muito bacana - veio a hora do aconselhamento. Então, o pai me falou:

- Já que o senhor gosta de causos, vou contar um causo da roça. É o causo de um menino, o Joãozinho, que não gostava muito de estudar. A família morava na roça. De manhã, bem cedo, a mãe acordava os filhos. O João detestava ir para a escola e precisava ser puxado da cama. Ia se vestindo aos poucos, sonolento, colocando uma meia, depois a outra etc. A mãe precisava ficar em cima dele. Até que saiam todos os irmãos e irmãs para a escola. Precisavam caminhar um bom eito até chegar à escola. Lá ia o Joãozinho se arrastando! Quando estavam quase chegando na escola, passaram por uma casa, na qual estavam castrando um porco. O animal guinchava e se debatia em terrível agonia. Uma das irmãzinhas comentou: "Coitado do porquinho!". Ao que o Joãozinho respondeu: "Coitado nada! Na escola será muito pior!". 

Como uma fagulha na brasa dormida, esse causo atiçou um outro, lá do fundo do baú das minhas reminiscências. Na época do colegial, eu tinha uma professora de inglês muito chata. OK, admito. Eu também era chato e me achava. Só que essa professora, além de chata, era metida a humorista. Eu também era. Acabou que não deu certo. Ou deu certo, apenas por linhas tortas.

Um belo dia,  a tal professora de inglês passou uma atividade que consistia no seguinte. Era uma cópia Xerox de uma série de cartoons da revista Mad, muito importante àquela época. Apareciam sempre dois personagens. Um falava uma coisa em inglês e os alunos precisavam responder no balão de fala do outro personagem a resposta humorística em inglês.

A cena que mais me interessou foi a de um dentista enfiando o boticão na boca de um paciente e pergutnando se doia. (Eu não gosto muito daquele tipo de dentista que fica puxando assunto enquanto enfia o boticão na sua boca.) Eu dei uma enfeitada na cena. Na parede, coloque uma tabuleta dizendo “Sala de Torturas da KGB”. No dentista, coloquei uma legenda dizendo “Torturador da KGB” e no paciente, coloquei uma legenda dizendo “Agente da CIA”. Lembre-se, vivíamos a época da Guerra Fria, lá pelos idos de 1970 e tantos.  Na fala do dentista-torturador, aparecia assim: “Está doendo?” Ao que o paciente-agente da CIA respondia pela minha pena: “Não dói nada. Na aula de inglês era muito pior!”.

Quando a sineta tocou, entreguei o trabalho e fui cuidar da vida. Qual não foi a minha surpresa quando, na aula seguinte, a professora disse que eu não podia entrar na aula dela e que deveria, antes, ir conversar com o padre. No final das contas, parece que a professora não tinha tanto senso de humor assim…

Lá fui eu, para a secretaria conversar com o padre. O padre era um cara bem legal, daqueles educadores construtivistas, imbuído de toda a tolerância que o Cristianismo prega e que pouquíssimos praticam. O padre me deu a real. Ele me falou que a professora não me queria mais na sala de aula e me perguntou o que eu sugeriria para resolver o problema.

Acho que não precisei refletir muito. Pensei um pouquinho com os meus botões, resgatei minha arrogância de gaúcho - ainda por cima de Tuparendi - e fiz uma proposta para o padre. Se a professora não me queria na aula dela, eu também não me queria na aula dela. Quando ela entrasse na sala de aula, eu sairia mui respeitosamente e iria tomar um café ou frequentar a biblioteca. No final do ano, eu faria uma prova para ver se eu dominava o conteúdo curricular ou não. O melhor (ou pior?) é que o padre topou. Passei o resto do ano tomando café e/ou frequentando a biblioteca nos horários de inglês.

No final do ano, eles montaram uma banca com três professoras e me fizeram um exame oral de inglês.  No qual eu me saí muito bem. Fui aprovado e toquei minha vida adiante, sem precisar assistir à aula daquela chata. Meu pai morreu sem saber dessa história. Minha mãe só ficou sabendo dessa história mais de 40 anos depois, através de uma conversa casual com a secretária do padre. 

O causo do pai de ontem me ajudou a ressignificar algumas máximas nas minhas reminiscências, as quais se cristalizaram ao longo dos anos. Em primeiro lugar, preciso reconhecer a tolerância do Padre; Fiquei me lembrando de uma piada do Barão de Itararé. O Barão também estudou com os jesuítas. Só que foi em São Leopoldo. Certa vez, o Barão estava à toa na aula e o professor lhe perguntou se, por acaso, ele gostaria de um cafézinho. O Barão não teve dúvidas, respondeu que dois cafézinhos seriam melhor do que apenas um. Tenho o maior carinho pelo padre e pela sua pedagogia.

Em segundo lugar, a comparação com os jovens de hoje em dia é reveladora. Naqueles bons tempos, a molecada se metia e saia (ou não) das confusões por conta própria. Os jovens metiam-se nas confusões sozinhos e também precisavam sair (ou não) das confusões sozinhos. Se não saíssem, e os pais descobrissem, as consequências seriam sérias. Assim, aprendiam (ou não) que as decisões tinham consequências e criavam (ou não) responsabilidade. Atualmente, a liberdade de experimentação foi substituída pela superproteção e pelo vitimismo.

Finalmente, essa e outras experiências certamente contribuíram para o desenvolvimento do Construtivismo de Tuparendi, que pratiquei na UFMG por 30 anos. Para o Construtivismo de Tuparendi contribuiu muito o MVP, ou Método de Viração Própria, praticado pela maioria dos professores da Faculdade de Medicina da UFRGS: A maioria dos professores não ensinava nada. Se o aluno quisesesse aprender alguma coisa, precisava se virar por conta própria. Era assim que se formavam os bons médicos: os que aprendiam a se virar por conta.

P.S. Com todo o respeito devido aos professores: muitas vezes os educadores não se dão conta de quão estressante a escola pode ser para crianças que têm uma batida diferente. O padre da minha história sacava isso. Bendito seja, onde quer que esteja.

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